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  • Livia Medeiros

Talvez você nunca alcance o primeiro milhão (e tá tudo bem).


Em meio a tanta gente compartilhando nas redes sociais que alcançou o primeiro milhão antes dos 30 e pagou apartamento à vista aos 18 talvez você, como eu, se sinta um ET.

Será que pra TODO mundo ficou fácil ganhar dinheiro, menos você?


Embora eu tenha um canal no YouTube, eu raramente procuro informação por lá (ler é mais rápido). Mas ontem, depois de um bom tempo, eu dei uma voltinha por alguns canais de finanças pessoais/motivacionais.


Confesso que senti uma vergonha, e nem posso dizer que foi alheia.


Fiquei preocupada do meu discurso estar soando parecido com o de alguns que ouvi por lá. Vou explicar.


Os primeiros vídeos que chamaram minha atenção (graças ao todo poderoso algoritmo) são aqueles do tipo “Como fiz meu primeiro milhão”. Assisti alguns. Vi gente batendo no peito e invocando a famosa meritocracia. Vi gente louvando o fato de ter autodisciplina, foco, acordar cedo, tomar banho gelado. Falando de ganhar dinheiro e fazer patrimônio crescer como algo fácil, intuitivo, quase automático. A minha primeira reação foi pensar: poxa, deve ter algo muito errado comigo se eu ainda não cheguei lá.


Vi gente passando a fórmula de sucesso financeiro como se tivessem reinventado a roda. Mas na verdade, quando você vai olhar bem para o histórico do influenciador, tem ali muitas pessoas que ganharam dinheiro nos negócios da família, ou às custas de vender produto ruim a preços superfaturados, ou apenas gente que teve sorte, que estava na hora certa no lugar certo. Além daqueles que ficaram ricos convencendo pessoas a perderem dinheiro em marketing multinível.


Em meio a isso tudo, além de me sentir mal, eu pensei em quantas pessoas que conheço que sofrem ou já sofreram por dinheiro. Pessoas que já tentaram de tudo e ainda não chegaram nem perto do primeiro milhão, e acordam cedo, dormem tarde, ralam demais. Pessoas boas. Tão merecedoras quanto.


Eu pensei em mim, no tanto que já sofri e ainda sofro por dinheiro, apesar de todos privilégios que tive na vida, que me impedem de poder reclamar de qualquer coisa. Longe de mim postar fotos de blazer no instagram pra vender a imagem de sucesso quando na verdade eu só aprendi a fazer umas planilhas e investir no básico, eu não resolvi meus problemas financeiros ainda. Eu não cheguei lá.


O meu desafio como educadora financeira é tentar simplificar um pouco a relação das pessoas com dinheiro. Mas eu sei que nem sempre será simples. Muitas vezes é doloroso, é pesado, é injusto. Eu sei.


E preciso dizer que você não é o único que sente isso - que todo mundo tem seu milhão por meritocracia e que se apenas você conseguisse acordar às 5:00 talvez você já estaria lá também.


Eu produzo conteúdo de educação financeira há quase 5 anos e já ouvi história suficiente pra te afirmar: relaxa, é difícil mesmo, todo mundo sofre e vai ficar tudo bem.


Talvez o primeiro milhão pareça longe demais porque realmente está, porque a vida não sai sempre do jeito que a gente imaginou.


E tá tudo bem.


Talvez você nunca alcance 1 milhão de reais em patrimônio investido (ou um milhão de seguidores que hoje é praticamente a mesma coisa).


Mas talvez você consiga construir sua casa sem grande sufoco, pagar sua faculdade e a de seus filhos, e ainda consiga levar todo mundo pra praia uma vez por ano.

Talvez você seja a pessoa mais organizada do mundo e sofra um grande imprevisto na vida.

Talvez você tenha que resgatar seus investimentos pra aliviar o sofrimento momentâneo de alguém da sua família.

Às vezes acho que influenciadores financeiros vivem em um mundo paralelo em que tudo é justo e meritocrático e altamente produtivo, uma jornada linear rumo ao sucesso. Viver sob essa expectativa só presta pra te deixar ansioso, isso não é real. Falar de dinheiro envolve falar de dor também.

Então toda vez que você for quebrar esse tabu e falar/escrever sobre dinheiro, lembre que estamos no Brasil e tenha empatia. Se o assunto não dói em você, em alguém está doendo, agora.


E pela sanidade mental da nação, vamos combinar assim: toda vez que o excesso de “cases” de sucesso te fizer se sentir um nada, levante a cabeça do smartphone e dê uma olhadinha pra realidade à sua volta.


Você está indo muito bem.

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©2019 by Livia Medeiros.